Da Crónica de Inconstâncias Odontológicas // From a Chronicle of Odontic Inconsistencies

.

2012

.

Instalação de vidro (pâte-verre e gravação a lazer), madeira e moveis // Installation with glass (pâte-verre and lazer engraving), wood and furniture

.

Existe um fascínio particular na história da ficção científica por mutações den­tárias das quais a do vampiro é a mais famosa. Lendas de seres sobrenaturais que se alimen­tam de sangue encontram-se em diversas eras e culturas por todo o mundo.
A ideia de vampiro esta intimamente ligada à de morte e decomposição, e as lendas de vampiros que proliferavam na Europa do séc. XVIII e XIX foram já reconhecidas como más interpretações do processo de decomposição do corpo humano. A desidratação da pele e gengivas, por exemplo, leva à sua contração, e induzia a ilusão de que dentes e unhas estariam a crescer. O mito destas alterações odontológicas perdura até hoje, na forma mais comum das dentaduras plásticas de brincar.Estas dentaduras represen­tam a massificação do mito e lembram de forma cómica a evolução que sofreu, desde o medo e terror dos seus ataques no séc. XVIII até aos dias de hoje enquanto objecto cómico. São a banalização massificada do elemento mais vital à ideia de vampiro, perdurando enquanto apoteose do mito.
Esta obra encena um espaço de estudo do macabro e catalogação de mutações dentárias,associando práticas científicas à ficção e à história do cinema de terror. Enaltece o fascínio pelo monstruoso e o obscuro, transportando o espectador para um espaço de carácter laboratorial. Remete para um imaginário da ficção científica no qual laboratórios são salas escondidas em caves ou torres altas, concebidos para explorar o que a sociedade nunca permitiria.
Os cinco quadros emoldurados, nos quais se encontra gravada sobre o vidro uma cro­nologia de próteses dentárias na história do cinema, relatam a evolução histórica destas mutações num dos campos que mais as influenciou, o cinema de terror.
As dentaduras de vidro e cerâmica, realizados a partir de moldes das triviais dentaduras de plástico, encenam a corrosão da matéria e da cor, e o formol que os envolve evoca uma relação com a morte e decomposição bem como um carácter mu­seológico. O Formol, associado a morgues e praticas taxidermistas, confere a suposição de uma vida por de traz de cada dentadura, concluindo assim a ficção da instalação.

.

There’s a particular fascination in the history of science fiction for dental mutations from which the vampire is the most famous. Tales of supernatural beings who feed on blood are found in different eras and cultures throughout the world. The idea of vampire is closely related to death and decay, and the legends of vampires that proliferated Europe in XVIII and XIX century have been recognized as misinterpretation of the decomposition process of the human body. For example the dehydration of the skin and gums, leads to its reduction and induces the illusion that teeth and nails would grow. The myth of these dental changes prevails today, in the most common form of the plastic play dentures. These dentures represent the mass expansion of the allegory and humorously remember the evolution that the myth suffered trough time, from the fear and terror of attacks in the XVIII century till the present day as humorous object. They stand as the mass trivialization of the most vital element to the idea of a vampire, while lasting as the apotheosis of the myth. This work stages a space for the study of the macabre and the cataloguing of dental mutations, combining practices of scientific fiction with the horror cinema history. Praises the fascination for the monstrous and the obscure, transporting the viewer to a space characterized by a laboratory atmosphere. It suggests a science fiction fantasy in which laboratories are hidden rooms in basements or in high towers, designed to explore what society would never allow. The five framed glass pictures engraved with a chronology of the use of dental prostheses in film history, relate the historical evolution of these mutations in one of its most influential fields, the horror cinema. The glass and ceramic teeth, made from a cast of the trivial plastic dentures, enact corrosion of matter and color. The involving formalin evokes a connection with death and rottenness as well as an anatomical museum appeal. The formalin associated with mortuaries and taxidermist practices presents the presumption of a life behind each dentures, thus concluding the fiction in the installation.