Da Representação de um Terceiro Paraíso // From the Representation of a Third Paradise
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2012
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Madeira, Vidro, Metal e cortiça // Wood, Glass, Metal, Cork
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http://www.youtube.com/watch?v=MDiLplw4eao
http://www.youtube.com/watch?v=pJMfMQdQcq8
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No âmbito de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, Miquelangelo Pistolletto coordenou uma instalação colectiva, na extensão do seu projeto Terzo Paradiso, em parceria com a Faculdade de Belas Artes do Porto, constituída por 90 postes de madeira, submetidos às intervenções artísticas de alunos da mesma, posteriormente dispostos de forma a desenhar o símbolo do Terceiro Paraíso.
Face a uma instalação tão composta, que aspira a um novo sagrado e a um momento histórico único, esta intervenção pratica a tentativa falaciosa de colecionar todo o acontecimento numa só coluna. Na intenção de transformar o poste num relato compacto da instalação colectiva, foram cravadas neste noventa pequenas prateleiras que preenchem metodicamente toda a sua superfície. Estas contém cada uma um pequeno tubo de ensaio que por sua vez conserva um fragmento do poste que representa, organizam-se ao longo da coluna segundo a ordem com que os postes desenham o signo do Terzo Paradiso.
A coluna reclama a função de relicário, na presunção de que cada um dos fragmentos retrata e materializa a presença dos postes nas suas prateleiras. Ambiciona a posição de algo sagrado, tanto pelas relíquias que ostenta como pela crónica que descreve da formação de um novo paraíso. Assume-se quase enquanto coluna coclide, relatando na sua superfície um acontecimento histórico, evento este que se passa na sua mesma atualidade. Relata o seu próprio presente, numa catalogação de carácter museológico que carece da condicionante temporal que sustenta a necessidade de comprovar e memorizar a existência de tal acontecimento, pois este está literalmente a acontecer em torno do mesmo.
Ao colecionar a ação de que faz parte, materializa um paradoxo temporal que coloca a peça num limbo existencial. Por sua vez, as amostras recolhidas de cada poste pretendem caracterizar o todo da instalação num ato claramente impraticável, pois estas são fragmentos tão pequenos que nunca representam completamente os outros postes em si. Nunca chegam a relatar algo reconhecível, figurando apenas a intenção de o fazer. O que prevalece é mais o ato em si de representar, colecionar e catalogar do que o próprio sujeito que efetivamente é compilado. Subsiste apenas enquanto tentativa de representação de algo que não pode nem necessita de ser representado.
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Under Guimarães 2012 - European Capital of Culture, Michelangelo Pistolletto oriented a collective installation in extension to his project Terzo Paradiso, in partnership with the University of Fine Arts in Porto, consisting of 90 wooden poles, submitted to the artistic interventions of students from the university, subsequently arranged to draw the symbol of the Third Paradise.
Faced with an installation so complex, which aspires to a new sacred and unique historical moment, this intervention practices the fallacious attempt to collect the whole event in one column. Intending to transform the pole into a compact description of the collective installation, ninety small shelves that fill methodically its surface were carved into the wood. Each one of these enclose a small test tube, which contain a fragment of the pole represented, and arrange themselves along the column according to the order in which the poles draw the Terzo Paradiso sign.
The column embodies the role of reliquary, on the assumption that each fragment depicts and reclaims the poles presence on its shelves. Aspires the character of something sacred by flaunting its relics as by the chronicle it describes on the formation of a new paradise. It assumes itself almost as coclide column, reporting on its surface a historical event, though this event takes place in the same moment. It reports its own present in a museum like cataloguing that is lacking the temporal condition that sustains the need to memorize and prove the happening of such event, as this is literally happening around the same. By collecting an action in which it takes part, generates a temporal paradox that places the piece in an existential limbo. In turn, the fragments taken from each pole intend to characterize the entire installation in an act that is clearly impractical, as these fragments are so small, they never fully represent the poles by themselves. Never even report something recognizable, figuring only the intention to do so. What prevails is more the actual act of representing, collecting and cataloguing than the subject that is actually compiled. It lasts, as an attempt to represent something that may not, neither need to be represented.