




A Extinção de Colosso
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2014
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Vidro Soprado, acrílico transparente e ossos de plástico
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É talvez na grande extinção que encontramos o melhor sentido de relação para com o universo.
No saber que este nosso planeta já pertenceu a outros. Que o mundo já se fez de outras escalas, de outras leis e de outras evoluções. Já foi de outros tiranos, de outras civilizações e de outros progressos.
Conceber a Terra de então é imaginar um universo paralelo, um mundo tão estranho que dificilmente o dissociamos da ficção científica. Visitar esse mundo é como visitar um outro planeta, numa outra galáxia, num outro filme. Mas tudo isto é daqui, deste planeta. Tudo isto aconteceu nesta ponta do dedo mindinho do universo, e tudo isto na fracção de segundo em que ele coça o seu nariz.
E o que nos fica são estas sobras. Os restos destes colossos que permanecem assim como os Titãs mortais que são hoje. Como faraós de outros tempos, guardados num outro andar da crosta terrestre.







Crónica de Inconstâncias Odontológicas II // Chronicle of Odontic Inconsistencies II
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2013
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Vidro Soprado, Madeira, Cerâmica, Vidrado de Chumbo, Aço, Cordão, papel Fabriano e desenho a tinta da china
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·“There, on our favourite seat, the silver light of the moon struck a half-reclining figure, snowy white… something dark stood behind the seat where the white figure shone, and bent over it. What it was, whether man or beast, I could not tell.”
Bram Stoker, Chapter 8, Dracula, 1897
Apropriando-se de lendas, contos e romances sobre aberrações e monstruosidades, o cinema desde cedo revelou um fascínio particular por mutações, das quais as dentárias sempre se destacaram, tendo estas sido amplamente exploradas desde os primórdios da existência da película. A narrativa de terror marca a sua posição na história do cinema antes mesmo de este se formar enquanto conceito, concretizando-se enquanto um dos principais géneros do cinema universal. Com o seu desenvolvimento, a produção de próteses dentárias cada vez mais extraordinárias pela industria cinematográfica foi transfigurando não apenas a história do cinema mas a nossa própria compreensão sobre “Terror”. Estas mutações dentárias foram sendo de tal maneira massificadas e vulgarizadas que eventualmente se transformaram num elemento popular, materializado hoje na forma mais comum da dentadura plástica de vampiro, aqui conservada como a derradeira memória desta crónica odontológica.







Náufragos Eternos // Eternal Shipwrecks
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2013
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Cimento, madeira, pano cru e fio do norte
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Da Série Existências Extraviadas
Mil barcos permanecem aqui naufragados como que suspensos numa existência embargada pelo espaço e tempo em que caiu. Embarcações que se viram desviadas do seu curso por meio de sinistros maiores e que agora perduram num limbo aquático, num cemitério infinito de navios que subsiste submerso numa atmosfera paralela à nossa. Sem concepção da impossibilidade do seu resgate e retorno à tona que divide os dois mundos, os eternos náufragos esperam pacientemente pela sua resolução, e perduram para sempre na inconsciência da sua eternidade destinada ao esquecimento.
Estas Existências Extraviadas compreendem em si a ideia de que um corpo naufragado define uma morte suspensa no tempo, na existência e no esquecimento. A presença de um corpo infinito que perdura só, numa atmosfera profunda, perdido na hidrosfera absoluta que o compreende, condenado a uma eternidade estática deixada ao esquecimento. A morte compõe não o fim, mas antes o inicio de uma existência pendente, desvinculada do seu acontecimento pela distancia que a afunda até á sua coordenada final. Submerso em escuridão e silencio, permanece ali depositado, sem finalidade ou finamento, sem consciência ou compreensão, numa existência privada de resolução, unicamente infinita.
Agradecimentos especiais a Cláudia Melo, André Covas, Isabel Trabulo, João Abreu, Reis Valdrez, Jorge Lourenço, Miguel Lomba, João Estelita, Mário Calixto, Joana Goma, João Espírito Santo e à equipa de voluntariado da Fundação da Juventude.




O Náufrago Encravado, e a sua condição pendente // The Wedged Castaway, and its pending condition
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2013
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Serigrafia sobre vidro, fio de pesca e gesso
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Da Série Existências Extraviadas
Poderá dizer-se que um corpo naufragado consiste numa morte suspensa no tempo, na existência e no esquecimento. A presença de um corpo infinito que perdura só, numa atmosfera profunda, perdido na hidrosfera absoluta que o compreende, condenado a uma eternidade estática deixada ao esquecimento. A morte compõe não o fim, mas antes o inicio de uma existência pendente, desvinculada do seu acontecimento pela distancia que a afunda até á sua coordenada final. Submerso em escuridão e silencio, permanece ali depositado, sem finalidade ou finamento, sem consciência ou compreensão, numa existência privada de resolução, unicamente infinita.



O Corpo e o Infinito // The Body and Infinity
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2013
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Vidro soprado, cedro atlântico, tinta de esmalte, plástico e gesso
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Da Série Existências Extraviadas
Poderá dizer-se que um corpo naufragado consiste numa morte suspensa no tempo, na existência e no esquecimento. A presença de um corpo infinito que perdura só, numa atmosfera profunda, perdido na hidrosfera absoluta que o compreende, condenado a uma eternidade estática deixada ao esquecimento. A morte compõe não o fim, mas antes o inicio de uma existência pendente, desvinculada do seu acontecimento pela distancia que a afunda até á sua coordenada final. Submerso em escuridão e silencio, permanece ali depositado, sem finalidade ou finamento, sem consciência ou compreensão, numa existência privada de resolução, unicamente infinita.


Sobre a Densidade Relativa // About Relative Density
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2013
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Vidro, água e cimento
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Da Série Existências Extraviadas
Poderá dizer-se que um corpo naufragado consiste numa morte suspensa no tempo, na existência e no esquecimento. A presença de um corpo infinito que perdura só, numa atmosfera profunda, perdido na hidrosfera absoluta que o compreende, condenado a uma eternidade estática deixada ao esquecimento. A morte compõe não o fim, mas antes o inicio de uma existência pendente, desvinculada do seu acontecimento pela distancia que a afunda até á sua coordenada final. Submerso em escuridão e silencio, permanece ali depositado, sem finalidade ou finamento, sem consciência ou compreensão, numa existência privada de resolução, unicamente infinita.



Da Definição de Naufrágio // Of The Definition of a Shipwreck
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2013
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Serigrafia sobre vidro, água e cimento
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Da Série Existências Extraviadas
Poderá dizer-se que um corpo naufragado consiste numa morte suspensa no tempo, na existência e no esquecimento. A presença de um corpo infinito que perdura só, numa atmosfera profunda, perdido na hidrosfera absoluta que o compreende, condenado a uma eternidade estática deixada ao esquecimento. A morte compõe não o fim, mas antes o inicio de uma existência pendente, desvinculada do seu acontecimento pela distancia que a afunda até á sua coordenada final. Submerso em escuridão e silencio, permanece ali depositado, sem finalidade ou finamento, sem consciência ou compreensão, numa existência privada de resolução, unicamente infinita.



Náufragos Eternos // Eternal Wrecks
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2013
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Cimento, madeira, tecido e tinta azul
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Da Série Existências Extraviadas
Poderá dizer-se que um corpo naufragado consiste numa morte suspensa no tempo, na existência e no esquecimento. A presença de um corpo infinito que perdura só, numa atmosfera profunda, perdido na hidrosfera absoluta que o compreende, condenado a uma eternidade estática deixada ao esquecimento. A morte compõe não o fim, mas antes o inicio de uma existência pendente, desvinculada do seu acontecimento pela distancia que a afunda até á sua coordenada final. Submerso em escuridão e silencio, permanece ali depositado, sem finalidade ou finamento, sem consciência ou compreensão, numa existência privada de resolução, unicamente infinita.





Contrariedades De Um Meio Naufrágio // Contrarieties Of Half A Shipwreck
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2013
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Casca de Noz, Tela, Acrílico, Verniz, Vidro e Água
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Apanhado num meio naufrágio um pequeno barco, embora virado, não se afunda, permanecendo teimosamente numa deriva pela tona da água sem nunca tocar no seu fundo, sem nunca chegar ao seu termo. Perdura nos limites de um limbo transparente, preso numa morte suspensa. O espelho desta morte pendente transparece que a existência não é apenas o contrário de ausência e que a morte não acontece apenas na ausência. A ausência é o último passo de um vasto percurso até à extinção de uma existência, no qual a morte é só um intervalo. Aqui, é meramente uma meta interrompida que não se oferece.










Da Dissecação de um Brinquedo de Corda // From a Dissection of a Wind Up Toy
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2012
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vidro soprado, madeira trabalhada em torno, acrylic, brinquedo mecânico e mesa // blown glass, wood, acrylic, Whind-Up toy and table
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Esta obra encena a ação de dissecação e estudo de um brinquedo mecânico, como se de um ser vivo se tratasse. Concede-lhe uma vida virtual, ficcionada pela ação que figura. Simula um estudo anatómico, evidenciando as diversas partes que constituem este outrora ser movido a corda e exprime o fascínio científico por uma ação tão brutal como a de dissecar um corpo.
A peça procura desenhar uma memória induzida, fictícia, que referencia um passado abstrato, confundindo reminiscências de épocas diversas. Esta memória induzida não pertence ao espectador mas faz parte do seu código cultural – vive-a por auto projeção num passado subjetivo. A esta pertence também uma memória universal da literatura, cinema e ficção que confere a possibilidade do fantástico. Esta obra abusa dessa projeção para um passado metafísico, ambicionando captar essa subjetividade temporal.
O brinquedo representa também uma memória coletiva de infância, e recorda uma idade na qual se aceita a ficção sem tentar reconhecer o absurdo e o paradoxal presente em construções como esta.
Um urso é em si uma ficção. O mecanismo interior do brinquedo funciona como organismo desse corpo, permitindo-lhe mover-se e realizar uma certa ação, concedendo-lhe uma vida fictícia. Inerente ao ato de dissecar um mecanismo de corda está a ideia de desconstrução de um movimento. O desfazer de uma ação em todas as partes que a compõem.
A obra representa nostalgicamente uma ação perdida, um tipo de fazer que há muito se dissipou. Aspira à atitude romântica das descobertas científicas do renascimento e Iluminismo, remetendo para as épocas da ascensão dos campos científicos, da glorificação do homem das ciências, do Conhecimento e da Razão.
Esta instalação apropria-se de campos da ciência, para que esta aja como um conector com a realidade. As redomas atuam como protetor da mentira que contém. Incutem um sentimento de seriedade e realismo, pressupondo um conteúdo nobre que justifique a proteção e evidenciação que conferem. De certo modo questiona a sua ficção ao mesmo tempo que a celebra. Finge uma ação que não é sua e apropria-se dos sentidos que esta lhe incute, persistindo enquanto mentira aliciante do que representa.
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This work performs the action of dissecting and study of a wind-up toy, as if it was a living being, granting him a virtual life, fictionalized by the action represented. Simulates an anatomical study, evincing the various parts that compose this being once moved by a wind mechanism and expresses a scientific fascination for an action as brutal as the one of dissecting a body.
The piece intends to draw an induced memory, fictitious, that makes reference to an abstract past, confusing reminiscences from various eras. This induced memory does not belong to the spectator but takes part of his cultural code – he lives it trough auto projection in a subjective past. To this belongs also a universal memory of literature, cinema and fiction that provides the possibility of the fantastic. This piece abuses of this projection to a metaphysical past, aiming to capture this temporal subjectivity.
The toy represents also a collective memory of childhood, reminding that age in which fictionis taken without any attempt to recognize the absurdity and paradox presented in constructions like this. The bear is itself a fiction. The toy’s interior mechanism works as organism of this body, allowing it to move and do a certain action, granting him a fictional life. Inert to the action of dissecting a wind up mechanism is the idea of dismantling a movement. The dismount of an action in all itscomponent pieces
The work represents nostalgically a lost action, a kind of doing that has been long forgotten. Aspires a romantically attitude of the scientific discoveries of renaissance and enlightenment, referring to the epochs of ascension of the scientific fields, the glorification of the man of Science, of knowledge and reason.
This installation appropriates science fields, intending them to act as a connector with reality. The domes act as protector of the lie they contain. They introduce a sense of seriousness and realism, assuming a noble content that justifies the disclosure and protection they offer. In a sense they question their fiction while celebrating it. Pretending an action that does not belong to them, appropriating the meanings that it instills, persist as the attractive lie they represent.





Da Crónica de Inconstâncias Odontológicas // From a Chronicle of Odontic Inconsistencies
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2012
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Instalação de vidro (pâte-verre e gravação a lazer), madeira e moveis // Installation with glass (pâte-verre and lazer engraving), wood and furniture
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Existe um fascínio particular na história da ficção científica por mutações dentárias das quais a do vampiro é a mais famosa. Lendas de seres sobrenaturais que se alimentam de sangue encontram-se em diversas eras e culturas por todo o mundo.
A ideia de vampiro esta intimamente ligada à de morte e decomposição, e as lendas de vampiros que proliferavam na Europa do séc. XVIII e XIX foram já reconhecidas como más interpretações do processo de decomposição do corpo humano. A desidratação da pele e gengivas, por exemplo, leva à sua contração, e induzia a ilusão de que dentes e unhas estariam a crescer. O mito destas alterações odontológicas perdura até hoje, na forma mais comum das dentaduras plásticas de brincar.Estas dentaduras representam a massificação do mito e lembram de forma cómica a evolução que sofreu, desde o medo e terror dos seus ataques no séc. XVIII até aos dias de hoje enquanto objecto cómico. São a banalização massificada do elemento mais vital à ideia de vampiro, perdurando enquanto apoteose do mito.
Esta obra encena um espaço de estudo do macabro e catalogação de mutações dentárias,associando práticas científicas à ficção e à história do cinema de terror. Enaltece o fascínio pelo monstruoso e o obscuro, transportando o espectador para um espaço de carácter laboratorial. Remete para um imaginário da ficção científica no qual laboratórios são salas escondidas em caves ou torres altas, concebidos para explorar o que a sociedade nunca permitiria.
Os cinco quadros emoldurados, nos quais se encontra gravada sobre o vidro uma cronologia de próteses dentárias na história do cinema, relatam a evolução histórica destas mutações num dos campos que mais as influenciou, o cinema de terror.
As dentaduras de vidro e cerâmica, realizados a partir de moldes das triviais dentaduras de plástico, encenam a corrosão da matéria e da cor, e o formol que os envolve evoca uma relação com a morte e decomposição bem como um carácter museológico. O Formol, associado a morgues e praticas taxidermistas, confere a suposição de uma vida por de traz de cada dentadura, concluindo assim a ficção da instalação.
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There’s a particular fascination in the history of science fiction for dental mutations from which the vampire is the most famous. Tales of supernatural beings who feed on blood are found in different eras and cultures throughout the world. The idea of vampire is closely related to death and decay, and the legends of vampires that proliferated Europe in XVIII and XIX century have been recognized as misinterpretation of the decomposition process of the human body. For example the dehydration of the skin and gums, leads to its reduction and induces the illusion that teeth and nails would grow. The myth of these dental changes prevails today, in the most common form of the plastic play dentures. These dentures represent the mass expansion of the allegory and humorously remember the evolution that the myth suffered trough time, from the fear and terror of attacks in the XVIII century till the present day as humorous object. They stand as the mass trivialization of the most vital element to the idea of a vampire, while lasting as the apotheosis of the myth. This work stages a space for the study of the macabre and the cataloguing of dental mutations, combining practices of scientific fiction with the horror cinema history. Praises the fascination for the monstrous and the obscure, transporting the viewer to a space characterized by a laboratory atmosphere. It suggests a science fiction fantasy in which laboratories are hidden rooms in basements or in high towers, designed to explore what society would never allow. The five framed glass pictures engraved with a chronology of the use of dental prostheses in film history, relate the historical evolution of these mutations in one of its most influential fields, the horror cinema. The glass and ceramic teeth, made from a cast of the trivial plastic dentures, enact corrosion of matter and color. The involving formalin evokes a connection with death and rottenness as well as an anatomical museum appeal. The formalin associated with mortuaries and taxidermist practices presents the presumption of a life behind each dentures, thus concluding the fiction in the installation.








Extraordinários Inconvenientes da Floresta Tropical // Extraordinary Inconveniences of the Rain Forest
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2013
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Vidro, cobre, Plantas falsas e miniatura pintada à mão // Glass, copper, fake plants and hand painted miniature
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Deparado com uma barreira invisível, um homem que se achava perdido na selva apercebe-se que não só está perdido como também preso e que por alguma razão inexplicável não se consegue desfazer da situação em que se encontra. A floresta tropical não é mais que uma encruzilhada de formas e elementos que se repetem, numa escala que lhe é estranha, e o isolamento toma-lhe o tamanho e a sua relação com a realidade. Inesperadamente é extraviado para um meio estranho e selvagem, repleto de impraticabilidades e incongruências, na aparente sentença de uma solidão indefinida, para se aperceber que estar perdido significa ter consciência da impossibilidade de ser encontrado.
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Faced with an invisible barrier, a man who found himself lost in the jungle realizes that not only is he lost but also imprisoned, and that for some inexplicable reason he cannot undo the situation in which he found himself. The rain forest is no more than a crossroads of shapes and elements that repeat themselves on a scale that is strange to him, while the isolation takes his size and his relation to reality. Unexpectedly he is misplaced into a strange and wild environment, filled with contradictions and inconsistencies, in an apparent indefinite solitude sentence, in order to realize that being lost means being aware of the impossibility of being found.




Do Princípio Constitucional da Pirite // From the Constitutional Principle of Pyrite
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2013
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Granite stone, pyrite, gold and silver leaf, glass and copper // Granito, pirite, folha de ouro e prata, vidro e cobre
Ficciona-se aqui a formação geológica de uma pirite como se de um acontecimento sobrenatural se tratasse. A pirite, que é na realidade é um dissulfeto de ferro de nome químico FeS2, é o sulfeto mineral mais comum de todos, podendo ser encontrado em qualquer parte do mundo. Devido ao seu brilho metálico e tonalidade dourada recebeu o cognome de ouro-dos-tolos, ou ouro-dos-pobres, e transporta consigo a ideia de algo falso, de incompleto, de menor, de bastardo, e de cópia dissimulada, mesmo quando no seu estado mais puro, no qual exibe admiráveis cristais isométricos em forma de cubos que se aglomeram sobre si mesmos.
Esta gruta cavada no granito desvirtua estas conotações, e revela um quimérico filão escondido no coração de bloco de granito. Simula uma onírica geóde de pirite, como se a origem deste mineral fosse algo divino, envolvido em esplendor e protegido por densas paredes de pedra, que a guardam e ocultam do mundo, retribuindo preciosidade e valor a este subestimado minério.
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The geological formation of a pyrite is fictionalized, as if it were a supernatural occurrence. The pyrite stone is in reality an iron disulfide that goes by the chemical name of FeS2 and is the most common mineral sulfide, being found anywhere in the world. Due to its metallic shine and golden shade, it acquired the surname of fools-gold, or gold-of-the-poor, and carries within the idea of something false, incomplete, minor, bastard and of deceitful copy, even when at its most pure state, in which it displays admirable isometric crystals in the shape of cubes, that cluster upon themselves.
This small cave dug into the stone distorts these connotations, and reveals a chimeric lode hidden in the heart of granite block. It simulates a oneiric geode of pyrite, as if its origin was something divine, wrapped in splendour and protected by thick stone walls, that guard and conceal it from the world, reimbursing preciousness and value to this underestimated mineral.




Da Representação de um Terceiro Paraíso // From the Representation of a Third Paradise
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2012
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Madeira, Vidro, Metal e cortiça // Wood, Glass, Metal, Cork
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http://www.youtube.com/watch?v=MDiLplw4eao
http://www.youtube.com/watch?v=pJMfMQdQcq8
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No âmbito de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, Miquelangelo Pistolletto coordenou uma instalação colectiva, na extensão do seu projeto Terzo Paradiso, em parceria com a Faculdade de Belas Artes do Porto, constituída por 90 postes de madeira, submetidos às intervenções artísticas de alunos da mesma, posteriormente dispostos de forma a desenhar o símbolo do Terceiro Paraíso.
Face a uma instalação tão composta, que aspira a um novo sagrado e a um momento histórico único, esta intervenção pratica a tentativa falaciosa de colecionar todo o acontecimento numa só coluna. Na intenção de transformar o poste num relato compacto da instalação colectiva, foram cravadas neste noventa pequenas prateleiras que preenchem metodicamente toda a sua superfície. Estas contém cada uma um pequeno tubo de ensaio que por sua vez conserva um fragmento do poste que representa, organizam-se ao longo da coluna segundo a ordem com que os postes desenham o signo do Terzo Paradiso.
A coluna reclama a função de relicário, na presunção de que cada um dos fragmentos retrata e materializa a presença dos postes nas suas prateleiras. Ambiciona a posição de algo sagrado, tanto pelas relíquias que ostenta como pela crónica que descreve da formação de um novo paraíso. Assume-se quase enquanto coluna coclide, relatando na sua superfície um acontecimento histórico, evento este que se passa na sua mesma atualidade. Relata o seu próprio presente, numa catalogação de carácter museológico que carece da condicionante temporal que sustenta a necessidade de comprovar e memorizar a existência de tal acontecimento, pois este está literalmente a acontecer em torno do mesmo.
Ao colecionar a ação de que faz parte, materializa um paradoxo temporal que coloca a peça num limbo existencial. Por sua vez, as amostras recolhidas de cada poste pretendem caracterizar o todo da instalação num ato claramente impraticável, pois estas são fragmentos tão pequenos que nunca representam completamente os outros postes em si. Nunca chegam a relatar algo reconhecível, figurando apenas a intenção de o fazer. O que prevalece é mais o ato em si de representar, colecionar e catalogar do que o próprio sujeito que efetivamente é compilado. Subsiste apenas enquanto tentativa de representação de algo que não pode nem necessita de ser representado.
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Under Guimarães 2012 - European Capital of Culture, Michelangelo Pistolletto oriented a collective installation in extension to his project Terzo Paradiso, in partnership with the University of Fine Arts in Porto, consisting of 90 wooden poles, submitted to the artistic interventions of students from the university, subsequently arranged to draw the symbol of the Third Paradise.
Faced with an installation so complex, which aspires to a new sacred and unique historical moment, this intervention practices the fallacious attempt to collect the whole event in one column. Intending to transform the pole into a compact description of the collective installation, ninety small shelves that fill methodically its surface were carved into the wood. Each one of these enclose a small test tube, which contain a fragment of the pole represented, and arrange themselves along the column according to the order in which the poles draw the Terzo Paradiso sign.
The column embodies the role of reliquary, on the assumption that each fragment depicts and reclaims the poles presence on its shelves. Aspires the character of something sacred by flaunting its relics as by the chronicle it describes on the formation of a new paradise. It assumes itself almost as coclide column, reporting on its surface a historical event, though this event takes place in the same moment. It reports its own present in a museum like cataloguing that is lacking the temporal condition that sustains the need to memorize and prove the happening of such event, as this is literally happening around the same. By collecting an action in which it takes part, generates a temporal paradox that places the piece in an existential limbo. In turn, the fragments taken from each pole intend to characterize the entire installation in an act that is clearly impractical, as these fragments are so small, they never fully represent the poles by themselves. Never even report something recognizable, figuring only the intention to do so. What prevails is more the actual act of representing, collecting and cataloguing than the subject that is actually compiled. It lasts, as an attempt to represent something that may not, neither need to be represented.









Da Dissecação de um Brinquedo de Corda // From a Dissection of a Wind Up Toy
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2012
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vidro soprado, madeira trabalhada em torno, acrylic, brinquedo mecânico e mesa // blown glass, wood, acrylic, Whind-Up toy and table
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Esta obra encena a ação de dissecação e estudo de um brinquedo mecânico, como se de um ser vivo se tratasse. Concede-lhe uma vida virtual, ficcionada pela ação que figura. Simula um estudo anatómico, evidenciando as diversas partes que constituem este outrora ser movido a corda e exprime o fascínio científico por uma ação tão brutal como a de dissecar um corpo.
A peça procura desenhar uma memória induzida, fictícia, que referencia um passado abstrato, confundindo reminiscências de épocas diversas. Esta memória induzida não pertence ao espectador mas faz parte do seu código cultural – vive-a por auto projeção num passado subjetivo. A esta pertence também uma memória universal da literatura, cinema e ficção que confere a possibilidade do fantástico. Esta obra abusa dessa projeção para um passado metafísico, ambicionando captar essa subjetividade temporal.
O brinquedo representa também uma memória coletiva de infância, e recorda uma idade na qual se aceita a ficção sem tentar reconhecer o absurdo e o paradoxal presente em construções como esta.
Um urso é em si uma ficção. O mecanismo interior do brinquedo funciona como organismo desse corpo, permitindo-lhe mover-se e realizar uma certa ação, concedendo-lhe uma vida fictícia. Inerente ao ato de dissecar um mecanismo de corda está a ideia de desconstrução de um movimento. O desfazer de uma ação em todas as partes que a compõem.
A obra representa nostalgicamente uma ação perdida, um tipo de fazer que há muito se dissipou. Aspira à atitude romântica das descobertas científicas do renascimento e Iluminismo, remetendo para as épocas da ascensão dos campos científicos, da glorificação do homem das ciências, do Conhecimento e da Razão.
Esta instalação apropria-se de campos da ciência, para que esta aja como um conector com a realidade. As redomas atuam como protetor da mentira que contém. Incutem um sentimento de seriedade e realismo, pressupondo um conteúdo nobre que justifique a proteção e evidenciação que conferem. De certo modo questiona a sua ficção ao mesmo tempo que a celebra. Finge uma ação que não é sua e apropria-se dos sentidos que esta lhe incute, persistindo enquanto mentira aliciante do que representa.
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This work performs the action of dissecting and study of a wind-up toy, as if it was a living being, granting him a virtual life, fictionalized by the action represented. Simulates an anatomical study, evincing the various parts that compose this being once moved by a wind mechanism and expresses a scientific fascination for an action as brutal as the one of dissecting a body.
The piece intends to draw an induced memory, fictitious, that makes reference to an abstract past, confusing reminiscences from various eras. This induced memory does not belong to the spectator but takes part of his cultural code – he lives it trough auto projection in a subjective past. To this belongs also a universal memory of literature, cinema and fiction that provides the possibility of the fantastic. This piece abuses of this projection to a metaphysical past, aiming to capture this temporal subjectivity.
The toy represents also a collective memory of childhood, reminding that age in which fiction is taken without any attempt to recognize the absurdity and paradox presented in constructions like this. The bear is itself a fiction. The toy’s interior mechanism works as organism of this body, allowing it to move and do a certain action, granting him a fictional life. Inert to the action of dissecting a wind up mechanism is the idea of dismantling a movement. The dismount of an action in all its component pieces
The work represents nostalgically a lost action, a kind of doing that has been long forgotten. Aspires a romantically attitude of the scientific discoveries of renaissance and enlightenment, referring to the epochs of ascension of the scientific fields, the glorification of the man of Science, of knowledge and reason.
This installation appropriates science fields, intending them to act as a connector with reality. The domes act as protector of the lie they contain. They introduce a sense of seriousness and realism, assuming a noble content that justifies the disclosure and protection they offer. In a sense they question their fiction while celebrating it. Pretending an action that does not belong to them, appropriating the meanings that it instills, persist as the attractive lie they represent.